domingo, 20 de março de 2011

Os Guerreiros do Lins


Em 12 de março, Becos e Vielas Produções adentrou a comunidade Nossa Senhora da Guia, no Complexo do Lins, Grande Méier, para conhecer o trabalho do Grupo Guerreiro da Guia. O Grupo foi formado em 1992, para dar uma outra opção aos jovens da comunidade, que eram facilmente aliciados pelo tráfico de drogas. O trabalho é anterior ao Afroreggae, unindo os mesmos ritmos que os do grupo de Vigário Geral (o samba e o reggae), são parceiros deles, mas não alcançaram a mesma projeção. Numa praça da comunidade, encontramos Adailton, líder do grupo, coordenando o ritmo de cerca de trinta jovens percussionistas e circundado por diversos membros da comunidade. A maioria, mães dos jovens músicos. Nosso grupo foi recebido com toda a fé. Adailton passou o comando dos instrumentistas para um parceiro seu e sentou-se com a equipe para conversar sobre o seu trabalho. Contou o início de tudo e a sua perseverança e resistência, já que o grupo não conta com apoio da iniciativa privada ou do governo e localiza-se numa área absolutamente carente de visibilidade e de investimento social, que é o Grande Méier. Um rapaz passa de bicicleta, fazendo alguma entrega, e Adailton imediatamente o convida para aproximar-se. Trata-se de um antigo integrante do grupo, que deixou os ensaios para trabalhar e sustentar a família (realidade esta que encontramos em todos os grupos visitados). O rapaz cantou para a gente uma composição de Adailton, imensamente poética e bem ritmada, canção de protesto, fazendo referência a um passado negro de escravidão que não se separa de um presente de marginalização e preconceito. Adailton lembra que o nome da serra sobre a nossa cabeça é Serra dos Pretos Forros, local em que se abrigavam negros alforriados no passado e atualmente ocupada por cidadãos com pouco ou nenhum capital real e simbólico. Adailton contou também sobre a sua amizade com Mr. Catra, que nasceu no estúdio do DJ Marlboro, logo ali do lado. Catra gravou músicas dos Guerreiros, residiu na comunidade e atualmente é um padrinho do trabalho, convidando jovens para participar de shows com ele, contribuindo com a compra de instrumentos. O coordenador geral do trabalho chama-se Walmir Aragão e o grupo realiza duas festas anualmente, na comunidade, em 13 de maio (Abolição da Escravatura) e 20 de novembro (Consciência Negra). Um outro aspecto que é bonito de se destacar é como os jovens multiplicam sua experiência, ensinando as crianças, que se amontoam ao redor dos percussionistas, a tocar um instrumento.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Em busca de critérios

Equipe Becos e Vielas em Palafita, no Museu da Maré.
Além do mapeamento de iniciativas artísticas e culturais localizadas em comunidades de baixa renda do Rio, a equipe Becos e Vielas tem realizado rodas de leitura e de debates semanais. O maior objetivo desta ação é a definição de critérios que permitirão ser utilizados para selecionar e organizar os grupos e artistas que serão apresentados no evento final do projeto. No último encontro, realizado na Vila do João, na Maré, cada integrante apresentou seus principais referenciais artísticos ao grupo a fim de investigar o que nos faz interessar por determinada manifestação artística e porque preferimos determinadas obras no lugar de outras. O jovem Leonardo Brasil, de Urucânia, rapidamente, retirou um exemplar de 1984, de George Orwell, da bolsa e disse que, para ele, a arte tem que ser política, tem que problematizar o atual estado das coisas – bem coerente com seu estilo de ser, já que Brasil compõe raps como quem fala sobre o tempo e dá aulas de teatro em um projeto social em Santa Cruz. Na mesma vertente dele, Daniele Braga citou a MPB (compositores como Chico Buarque e Gonzaguinha) como exemplo de uma arte que fala de amor e, ao mesmo tempo, de política, destacando a música como uma linguagem capaz de sensibilizar mais do que as outras. Romildo Jagunço, da Cidade Alta, citou os filmes de Chaplin e, mencionando sua longa experiência como capoeirista e educador social, disse acreditar que a arte serve para resgatar vidas, ou seja, ligar os seres humanos a um sentido de existência – abrindo espaço para pensar a arte em uma dimensão religiosa. Ademir Lamego trouxe o exemplo de Dom Quixote, seu livro de cabeceira, como um exemplo de obra de arte elevada – imediatamente, traçamos um paralelo entre o personagem de Cervantes e os artistas das favelas, que transformam seus sonhos e delírios em ações. Lamego citou ainda a obra O velho e o mar, de Hemingway, como um exemplo de obra de arte com capacidade de sintetizar em pouco espaço uma profunda visão de mundo. Para Aline, da Maré, interessam as obras de arte latinas (como Frida Kahlo e Almodóvar), pois estas fazem frente a um contexto cultural muito influenciado pelos Estados Unidos. Edenise Silva contou seu recente primeiro contato com um espetáculo de teatro, uma peça cujo nome era escrito de forma pouco usual (Bollywood), o que despertou nela a vontade de fazer esta arte para o resto de sua vida. Tiago Martha disse interessar-se pela arte feita por ele próprio e demais artistas de comunidades, acreditando que a arte é um processo sempre em construção e que não depende necessariamente de outras referências. Vicente, condutor do debate, mencionou a capacidade que a arte tem para inovar, trazendo idéias de uma forma como não tinham sido antes concebidas. A idéia, a partir de agora, é discernir estas questões na produção cultural a ser visitada.

terça-feira, 1 de março de 2011

Segmentos no Museu da Maré

No dia 26 de fevereiro, a equipe de produção Becos e Vielas visitou também a Segmentos Cia. de Dança, que realiza seus ensaios em uma sala do Museu da Maré. O grupo participou de um debate com os bailarinos, com o diretor artístico e com o diretor coreográfico. Segue informações sobre o trabalho, coletados pela integrante Edenize Silva, da Maré:

A Segmentos Cia. de Dança é um projeto artístico e profissionalizante criado em 2008, com base na dança contemporânea e com fins sociais. Nasceu da vontade de instituir no Brasil um centro de troca de experiências, inovação e acesso cultural a população. Residente no bairro da Maré – Rio de Janeiro desde 2008. Pretendemos realizar workshops, aulas e apresentações em diferentes ambientes sociais, a fim de mostrar aos jovens de comunidades com baixa renda que é possível mudar a realidade em que vivem através da cultura.

Objetivos: Nosso maior objetivo é democratizar o acesso ao ensino da dança e das artes conexas, através da integração de pessoas que desenvolvam novas formas de intervenção na realidade social, acreditando no potencial de cada jovem.

Meta: Contribuir para desenvolver a construção de novas relações com o corpo, permitindo que crianças e jovens estabeleçam novos vínculos sociais e novas estratégias de futuro, tanto no plano individual quanto coletivo.

Atividades: Nosso foco principal com relação às atividades é culturais, sociais, cidadania e cultural, sendo transmitidas através de aulas, oficinas, amostras e workshop, entre espetáculos. Todas as atividades realizadas são administradas pelos dois diretores do projeto e assim sucessivamente o setor de coordenação coloca em prática toda a organização. Para o qual, ser ministradas de forma qualificada pelos professores da equipe. Sábados – 14:00h às 20:00h e Domingos – 10:00h às 15:00h (Acompanhe a programação através do nosso web-site). Aulas e Oficinas: Ballet Clássico Dança contemporânea, Técnicas de Street Dance, Arte Circense, Alongamento e Composição Coreográfica. Amostras e Workshop: Suas realizações ocorrem através do corpo de dança da companhia em lugares populares e forma acessível à entrada da população.
Espetáculos: Produção Própria através da apresentação dos espetáculos em repertórios.

Equipe Artística

Direção Artística e Concepção: Thiago Sá

Direção Coreográfica e Ensaios: Marcio Cardoso

Assistente de Direção e Coordenação: Noeli Pinheiro

Bailarinos e Interpretes: Amanda Muniz, Carlos Assis, David Valença, Luana
Domingos e Paulo Vasconcellos

Maítre-de-Ballet: Camille Oliveira

Técnica Contemporânea: Thiago Sá

Estilos Modernos de Street Dance: Claudio Cardoso

Arte Circenses: Alexandre Monteiro

Assessoria de Imprensa e Produção: Joana D'arc

Cenógrafo: Bruno Serpa

Edição Visual: Paula Ribeiro

Fotografo:Robson Santos

CONTATO:

Grupo Artístico & Cultural Segmentos

www.gruposegmentos.org / companhia@gruposegmentos.org

+55 21 3109-4292 / 9477-4484

Os Populares do Museu da Maré


 Em 26 de fevereiro, a equipe Becos e Vielas foi ao Museu da Maré encontrar-se com a Companhia Teatral Os Populares e assistir a um trecho de seu espetáculo "Das Neves - Uma Princesa Quase Perfeita". Segue trecho da entrevista realizada pela integrante Edenize Silva, moradora do Complexo da Maré:


 "A Companhia Teatral Os Populares é um grupo formado por 7 atores, jovens entre 18 e 25 anos, moradores do Conjunto de Favelas da Maré. A Cia foi criada a partir do contato com uma oficina de teatro oferecida pelo NAM – Núcleo de Artista da Maré nos anos de 2006, 2007 e 2008. Logo após o fim da oficina o grupo se reencontrou em 2009 e juntos decidiram criar uma companhia teatral que possa levar aos palcos peças populares e que facilitem a acessibilidade do público de baixa renda a eventos culturais. A companhia segue uma metodologia livre e não se prende a um estilo, seja ele drama ou comédia. A Cia utiliza técnicas de improvisação e criação coletiva, ou seja, todo trabalho artístico é elaborado por todos os membros do grupo, assim como o cenário, figurino, maquiagem repertório e direção. Acreditamos na construção coletiva e na inserção de qualquer individuo na atuação artística, descobrindo assim um novo mundo e quebrando barreiras do preconceito social e ser reconhecendo como um potencial transformador da sua realidade.Dessa forma, não temos um público especifico, atingimos desde a criança até o adulto, levando peças infantis e adultas para teatros, escolas, praças, centro culturais, museus, centros de ensino, etc. o que move o grupo é a democratização da cultura á todos os grupos sociais, atingindo um público diversificado e levando uma interpretação leve e bem humorada.Em 2010, realizamos duas apresentações no Museu da Maré/Complexo da Maré, onde um público estimado em mais de 250 pessoas no total assistiram a peça “Baú de Comédias” com sete esquetes diferentes, causando muitas gargalhadas e principalmente garantindo o acesso aos moradores da região de forma gratuita. No mesmo ano, o grupo participou da semana de atividades culturais da Escola Municipal Paulo Freire/Complexo da Maré, onde apresentou a pequena peça “Das Neves - Uma princesa quase perfeita”, com a participação de mais de 150 crianças, adolescentes e professores. Isso tudo mostrou o quão importante é equipamentos culturais como o teatro em localidades de baixa renda, incentivando e estimulando a assistir a outros espetáculos e a freqüentar centros culturais dentro e fora da região.Desde o ano de 2009 o grupo vem se encontrando no Ponto de Cultura Museu da Maré, no Complexo de favelas da Maré. É nesse espaço que a companhia ensaia e cria as peças teatrais. Os encontros acontecem aos sábados de 16h às 19h. Em média, o grupo leva em torno de 6 a 1 ano para pôr uma peça em cartaz. Algumas de nossos espetáculos: Baú de de Comédias, Das neves - uma princesa quase perfeita, A Posse do Prefeito, entre outros pequenos trabalhos."

Contatos: (21) 7511-0928 e 3104-5490(falar com JB Henrique) - orkut/e-mail:ctospopularesrj@gmail.com

Becos e Vielas na Vila Cruzeiro

No dia 19 de fevereiro, a equipe de produção Becos e Vielas visitou o Teatro da Laje, na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, onde assistiu a uma apresentação especial do espetáculo "A Viagem da Vila Cruzeiro à Canaã de Ipanema, Numa Página de Orkut". Segue o texto produzido pela coordenadora de produção, Daniele Braga:

"Grupo teatral criado pela iniciativa de um professor, que, percebendo a aptidão de alguns alunos, sentiu a necessidade de manter e aprimorar o trabalho, lapidando os talentos. Composto atualmente por sete jovens atores moradores da comunidade da Vila Cruzeiro, com idades entre 15 e 23 anos, levando na marca um dos grandes diferencias, Camila é a unica menina do grupo. Com 8 anos de formação, o grupo se prepara em um espaço cedido por um amigo do diretor, e traz o nome do lugar que familiares e amigos dos atores emprestavam para os antigos ensaios: a laje. Sem ajuda do governo, tráfico, ou ong's, o Teatro da Laje faz criticas a todos os tipos de preconceito, politica, abuso de poder e, entre outras coisas,  aos "projetos sociais": Os finaciamentos que vêm para as favelas rotulados e escritos de formas autoritarias, sem que realmente se saiba a realidade e necessidade do lugar, diz Verissimo. Atualmente, levantando esse tipo de critica o grupo traz para os espectadores uma consciência social, mas, futuramente, com o sucesso (que é muito desejado e esperado) qual seria o melhor método para não perderem a identidade e a essencia do grupo? Continuar com as criticas ou se aliar aos iniciativas que criticam para espandir o trabalho? Não tem como se isolar totalmente, nem como se vender totalmente. O não isolamento passa por muitas questões, a principal é a linguagem, diz Deivson Garcia, um dos atores. Qual a visão do grupo em relação ao conflito entre policias e bandidos da região?  A relação sempre foi de conflito, os policiais sempre buscaram motivos para denegrir a imagem e entrar nas favelas. Na década de 40, era pela religiosidade da maioria dos moradores, entravam e destruiam os terreiros de candomblé. Hoje em dia, são devidos aos bandidos e depois vão arumar outros motivos, diz Veríssimo."
Para quem quiser conhecer melhor o trabalho do grupo:
http://www.grupoteatrodalaje.com.br/principal.htm

Mestre Jagunço

Dia 12 de fevereiro, a equipe Becos e Vielas ganhou um integrante super especial, Romildo dos Santos, Mestre Jagunço, capoeirista desde 1989.

http://www.facebook.com/update_security_info.php?wizard=1#!/profile.php?id=1447129559

Nascido no interior de São Paulo, circulou pelo Brasil inteiro, desenvolvendo os mais diversos tipos de atividades, até chegar ao Rio e estabelecer-se em Cidade Alta, na zona norte da cidade. Filho de lavradores e com uma grande experiência como pedreiro e mestre de obras, Jagunço sempre desejou ter uma vida diferente da de seu pai e por isso sempre agarrou-se em livros, conhecimento e arte. É um dos fundadores do grupo de cultura afro-brasileira Kina Mutembua, que surgiu na ONG Ação Comunitária do Brasil, em 2002. O grupo surgiu para elevar a auto-estima de meninos afrodescendentes da Cidade Alta e da Vila do João, no Complexo da Maré e serviu para quebrar o estigma de circulação de jovens entre as duas comunidades, já que são comandadas por facções do tráfico distintas. Romildo foi um dos pioneiros a atravessar a fronteira imaginária, que divide essas comunidades. O grupo atingiu um nível técnico altíssimo e se destacou no cenário nacional e internacional, mas, por avaliação de Romildo, as vaidades cresceram demais e logo surgiram conflitos que frearam o desenvolvimento do grupo. "Menino de favela ficou deslumbrado ao se ver aplaudido pelos gringos do Copacabana Palace". Romildo é atualmente Mestre de Capoeira da Ação Comunitária do Brasil e um dos mais belos trabalhos que desenvolve é multiplicar sua experiência a menores em situação de conflito com a lei, em unidades do DEGASE.

Quem quiser assistir ao belíssimo trabalho do Kina Mutembua, segue o link para o Youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=H6MRd9bOZmI

Parabéns pelo seu trabalho, Mestre Jagunço e obrigado por juntar-se a nós.

Uma Produção Becos e Vielas

No dia 05 de fevereiro, a equipe de produção da Mostra de Artes das Favelas reuniu-se na Ação Comunitária do Brasil da Vila do João (Ponto de Cultura Novas Ondas da Maré), para ações de planejamento e formação. O grupo elegeu Daniele Braga, de 22 anos, moradora da Vila Kennedy, em Bangu, para ser a coordenadora de produção do evento. Daniele cursou Projovem Trabalhador Arte e Cultura I e Curso Técnico de Produção Cultural. Demonstra um perfil de liderança, com bastante aptidão para organizar ações e estratégias. É assídua aos encontros do grupo e tem se mostrado peça fundamental neste trabalho. Uma das suas primeiras propostas foi a de criação de um nome para o grupo que tem se reunido para produzir a Mostra. A idéia partiu de Leonardo Brasil, 26 anos, morador de Urucânia, em Santa Cruz, compositor, ator e arte-educador: Becos e Vielas Produções. Tiago Marta, 30 anos, morador do Catete, que está a frente da identidade visual do trabalho, criou a logomarca.